Esta última terça-feira, foi um dia memorável. Tive uma reunião no Terreiro do Paço, e resolvi recorrer aos transportes públicos apanhando o comboio da Linha de Sintra em Massamá.
Estava um sol simpático, um dia primaveril e lá fui eu!
A primeira grande surpresa foi ter descoberto que para muitas pessoas a modernidade pode significar a impossibilidade de tirarem bilhete: A estação está em reconstrução e aparentemente não existe bilheteira, as máquinas de venda automática implicam algum à vontade com as novas tecnologias, para além de que estão viradas a sul, ou seja ao sol, e quase não se vê. A minha mãe voltava para trás e o mesmo aconteceria com uma parte significativa da população.
Nos últimos... talvez trinta anos, utilizei o comboio duas ou três vezes, e nunca até ao Rossio, pelo que foi com emoção que revivi esse percurso, que sem ser a Linha do Tua também tem a capacidade de avivar memórias, especialmente o trajecto final do túnel, marcante pela sonoridade própria do ruído matraqueante sobre os carris, e pelo breu repentino que transmite a sensação de sairmos por momentos para uma outra dimensão de que regressamos com a chegada ao coração de Lisboa.
Em semana de "25 de Abril", recordei-me dessa manhã de 1974: na altura eu fazia o percurso Amadora - Rossio todos os dias porque andava a estudar no Colégio Académico nos Anjos; um amigo e colega, o Vitor Ferreira, ligou-me talvez perto das oito a dar a notícia: há uma revolução!
Por esse tempo com dezoito anos, já tinha alguma consciência política, já era contra a situação, já contestava as regras autoritárias e cinzentas que minavam a vida das pessoas, já lamentava o isolamento do país, já fugira da polícia numa manifestação no Rossio uns meses antes, e o mesmo numa reunião (arriscada) do MDP-CDE na Amadora!
Por isso, para além da exaltação de qualquer coisa que de repente rasga o quotidiano, percebi o que estava a acontecer. Encontrámo-nos todos - um grupo de amigos - na Minabela, o café onde baseávamos o nosso relacionamento, e não resistimos: depois de almoço, contrariando a prudência e os avisos, e respondendo ao apelo da euforia fomos para a baixa! O ambiente era o que vemos nos filmes a preto e branco: populares a gritar, a encorajar, a participar, soldados armados, tanques, tensão, incerteza... e eu estava lá! Na António Maria Cardoso, junto à sede da Pide DGS o ambiente era especialmente tenso: muita gente, muita tropa, um murmúrio permanente. Quando cheguei a alguns metros do local, talvez um prédio abaixo do lado contrário, houvem-se tiros! Empurrei a porta do prédio e corri escada acima até ao último piso; fui seguido por uma outra pessoa qualquer. Ficámos sempre em silêncio, ofegantes, atentos. O meu coração batia acelaradamente. Depois fomos descendo lenta e prudentemente, de ouvidos alerta, de novo até ao rés-do-chão. Estive ali um bocado, espreitando e entrando consecutivamente, até perceber que podia sair. Desci a rua como quem foge do diabo, procurei os meus amigos, e depois regressei - um bocadinho de rabo entre as pernas, como cão assustado - ao aconchego de casa.
Hoje, quando cheguei a Massamá estava inesperadamente a chover!
Debaixo de umas arcadas acotovelava-se um grupo de pessoas apanhadas desprevenidas pela mudança súbita das condições climatéricas.
Estava um sol simpático, um dia primaveril e lá fui eu!
A primeira grande surpresa foi ter descoberto que para muitas pessoas a modernidade pode significar a impossibilidade de tirarem bilhete: A estação está em reconstrução e aparentemente não existe bilheteira, as máquinas de venda automática implicam algum à vontade com as novas tecnologias, para além de que estão viradas a sul, ou seja ao sol, e quase não se vê. A minha mãe voltava para trás e o mesmo aconteceria com uma parte significativa da população.
Nos últimos... talvez trinta anos, utilizei o comboio duas ou três vezes, e nunca até ao Rossio, pelo que foi com emoção que revivi esse percurso, que sem ser a Linha do Tua também tem a capacidade de avivar memórias, especialmente o trajecto final do túnel, marcante pela sonoridade própria do ruído matraqueante sobre os carris, e pelo breu repentino que transmite a sensação de sairmos por momentos para uma outra dimensão de que regressamos com a chegada ao coração de Lisboa.
Em semana de "25 de Abril", recordei-me dessa manhã de 1974: na altura eu fazia o percurso Amadora - Rossio todos os dias porque andava a estudar no Colégio Académico nos Anjos; um amigo e colega, o Vitor Ferreira, ligou-me talvez perto das oito a dar a notícia: há uma revolução!
Por esse tempo com dezoito anos, já tinha alguma consciência política, já era contra a situação, já contestava as regras autoritárias e cinzentas que minavam a vida das pessoas, já lamentava o isolamento do país, já fugira da polícia numa manifestação no Rossio uns meses antes, e o mesmo numa reunião (arriscada) do MDP-CDE na Amadora!
Por isso, para além da exaltação de qualquer coisa que de repente rasga o quotidiano, percebi o que estava a acontecer. Encontrámo-nos todos - um grupo de amigos - na Minabela, o café onde baseávamos o nosso relacionamento, e não resistimos: depois de almoço, contrariando a prudência e os avisos, e respondendo ao apelo da euforia fomos para a baixa! O ambiente era o que vemos nos filmes a preto e branco: populares a gritar, a encorajar, a participar, soldados armados, tanques, tensão, incerteza... e eu estava lá! Na António Maria Cardoso, junto à sede da Pide DGS o ambiente era especialmente tenso: muita gente, muita tropa, um murmúrio permanente. Quando cheguei a alguns metros do local, talvez um prédio abaixo do lado contrário, houvem-se tiros! Empurrei a porta do prédio e corri escada acima até ao último piso; fui seguido por uma outra pessoa qualquer. Ficámos sempre em silêncio, ofegantes, atentos. O meu coração batia acelaradamente. Depois fomos descendo lenta e prudentemente, de ouvidos alerta, de novo até ao rés-do-chão. Estive ali um bocado, espreitando e entrando consecutivamente, até perceber que podia sair. Desci a rua como quem foge do diabo, procurei os meus amigos, e depois regressei - um bocadinho de rabo entre as pernas, como cão assustado - ao aconchego de casa.
Hoje, quando cheguei a Massamá estava inesperadamente a chover!
Debaixo de umas arcadas acotovelava-se um grupo de pessoas apanhadas desprevenidas pela mudança súbita das condições climatéricas.


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